2007-09-09 Allan Kardec e O Livro dos Espíritos
Allan Kardec e O Livro dos Espíritos Entrevista concedida por Divaldo Pereira Franco a Sônia Zaghetto, em 3 de abril de 2007. 1) O método kardequiano baseava-se em três pilares sólidos: as reuniões instrutivas, as evocações e o Controle Universal do Ensino dos Espíritos. Após a desencarnação do codificador e a posterior migração do movimento espírita para o Brasil, vimos ocorrer o seguinte fenômeno: as reuniões instrutivas perderam terreno para as reuniões de atendimento a Espíritos sofredores ou de desobsessão; as evocações foram quase totalmente substituídas pelas comunicações espontâneas; e o CUEE ficou no passado. Pergunta: por que o método kardequiano não encontrou terreno fértil no movimento espírita brasileiro? O que fazer para resgatá-lo e torná-lo aceito como prática comum no movimento espírita? Penso que ainda se mantêm esses três pilares, embora com algumas adaptações, considerando-se que, à época do egrégio Codificador, faziam-se necessários conforme estabelecidos, tendo em mira a grandiosa elaboração da Obra que lhe fora confiada. Depois de concluída, o processo evoluiu naturalmente, conforme tenho observado em outros países do mundo por onde tenho passado. As reuniões prosseguem instrutivas, ao tempo em que se revestem da ação da caridade aos Espíritos sofredores e aos obsessores – caridade, que é pedra angular do pensamento espírita. As evocações perderam o sentido imediato, por desnecessidade, podendo, nada obstante, ser realizadas quando se tornem imperiosas. Por fim, o controle universal cedeu lugar ao bom senso, por falta de alguém com as características de liderança do mestre de Lyon, agora reservado às Entidades administrativas do Movimento Espírita. 2) Percebe-se no Movimento Espírita uma certa dificuldade com relação, particularmente, à evocação, que sempre é citada por Allan Kardec como útil e importante. Espíritos como Emmanuel e Vianna de Carvalho chegaram a desaconselhar a evocação. A frase de Chico Xavier "o telefone só toca de lá para cá" também contribuiu para que a evocação fosse banida. O que fazer quando um dirigente ou Espírito trata a evocação como se fosse algo errado? Há alguma particularidade no entendimento desse banimento da evocação? Acredito que o cuidado desses benfeitores espirituais reveste-se de zelo, a fim de que sejam evitadas as mistificações muito comuns, particularmente decorrentes das condições morais e espirituais daqueles que se candidatam às evocações. Não há nenhuma proibição, por parte deles, que eu saiba, mas somente recomendação. 3) Temos visto, em muitas instituições espíritas, um conhecimento maior das obras complementares do que da Codificação espírita. Que conseqüências traz, para a instituição, esse procedimento? O estudo das obras da Codificação é fundamental para o conhecimento e a divulgação do Espiritismo. O Espírito Joanna de Ângelis, abordando a questão, oportunamente estabeleceu uma tríade: espiritizar, qualificar e humanizar o candidato ao conhecimento da Doutrina. Sem o conhecimento criterioso da Codificação não se tem condição de dirigir uma instituição que represente o Espiritismo. As conseqüências desse desconhecimento são, portanto, lamentáveis e perturbadoras. 4) Muitas pessoas afirmam que O Livro dos Espíritos é um tratado filosófico difícil de ler. Outros pretendem atualizar a linguagem e torná-lo mais fácil. O que o Sr. pensa dessas propostas? Todo livro de filosofia requer atenção, reflexão, método de estudo para melhor compreender-se-lhe o conteúdo. O Livro dos Espíritos não é apenas uma obra de filosofia, mas uma síntese do conhecimento científico, filosófico e religioso, que exige aprofundamento nos seus conteúdos e seriedade no seu estudo. Atualizar a sua linguagem, fugindo à qualidade do conceito, é interpretá-lo, falseando-lhe o valor profundo, que ninguém se deve permitir, porque poderá facultar posteriores adulterações sob justificativas inconseqüentes. O Espiritismo é também uma doutrina de cultura, nada obstante, pessoas muito simples e sem grandes recursos intelectuais, com paciência e orientação, podem penetrar-lhe os ensinamentos enriquecedores, que passam a vivenciá-los com imensa tranqüilidade. O exemplo de minha genitora confirma essa assertiva, porquanto era analfabeta e eu lia-lhe a obra iluminativa, explicando-lhe, o que a tornou uma verdadeira espírita. 5) Há um tremendo desconhecimento da personalidade de Allan Kardec até mesmo por parte dos espíritas. Isso deu origem até a teses universitárias que afirmam que a caridade de Allan Kardec era um conceito abstrato e que somente aqui no Brasil é que o Movimento espírita se reinventou e adotou a prática da caridade. O que dizer para quem pensa assim? Deveremos dizer que houve, um engano, sim, de interpretação, daqueles que assim pensam. Em face de o Brasil apresentar problemas socioeconômicos muito graves, como inúmeros outros países, os espíritas compreendemos que nos cabe a tarefa de auxiliar o nosso próximo naquilo que lhe é de maior urgência. Não se pode apresentar doutrinas sérias e que exigem reflexão como o Espiritismo, àqueles que estão com o estômago vazio, ao desamparo, nos guetos da miséria, que vêem os filhos passando necessidades, ou que se encontram sob os camartelos de enfermidades cruéis... Primeiro deve-se atenuar-lhes os sofrimentos com ações para depois oferecer-lhes os esclarecimentos de que necessitam. 6) Há como sensibilizar os jovens para o estudo de O Livro dos Espíritos? Como? Não há melhor maneira de sensibilizar, seja a quem for, do que através da sinceridade, da exposição honesta do pensamento. No que diz respeito, a O Livro dos Espíritos para as mentes juvenis, a metodologia aplicada é que deve ser convenientemente adaptada aos seus interesses, como fazemos em nossa Juventude, que conta com mais de 200 freqüentadores, nessa faixa etária, de onde saíram muitos dos adultos que hoje cooperam em nossa Casa, já que nossa atividade infanto-juvenil tem aproximadamente 49 anos de atividade. 7) Percebe-se (ainda que lentamente), entre os espíritas, um nascente movimento que defende uma volta ao estudo profundo das obras de Allan Kardec. Isso é uma percepção exata? O Sr. tem notícias de que estariam reencarnando espíritos mais comprometidos com o pensamento do Codificador, a fim de que o Espiritismo retorne à sua forma original? Essa preocupação tem sido constante, mesmo no passado. Sucede que, em face de algumas revelações esdrúxulas e atentatórias ao bom senso e à lógica, que vêm surgindo em nosso Movimento e, em alguns lugares são apresentadas como doutrinárias, os espíritas sinceros que amamos o Espiritismo, estamos convidando a todos os interessados em conhecer a Doutrina, para que aprofundem o pensamento na Codificação, de modo a poderem entender esta fase de transição, na qual, as novidades e os desvios de comportamento que aumentam em todas as áreas da sociedade e vêm invadindo também o nosso Movimento, não se transformem em temas aceitos sem a conveniente análise e debate que merecem... 8) Apesar de fartamente definido pelo próprio Codificador, o caráter religioso da Doutrina ainda é fonte de controvérsias. Qual a sua avaliação sobre a religião espírita? Na sua opinião, o conceito de religião que praticamos no Brasil está de acordo com a percepção do Codificador? Não poucas vezes, o insigne Codificador reporta-se às questões religiosas que se encontram embutidas na Doutrina Espírita. Refiro-me aos conteúdos e não às cerimônias ou rituais comuns nas religiões convencionais. Sendo uma Doutrina, cuja primeira indagação é a respeito de Deus, posteriormente, referindo-se à Lei de adoração, ao hábito da prece, à excelência da caridade, à prática da mediunidade religiosamente, cristãmente, ao exercício das virtudes, pessoalmente entendo o Espiritismo também como sendo religião, é claro que respeitando aqueles co-idealistas que pensam diferente e com razões ponderáveis. 9) Entre as muitas novidades que surgem no Movimento Espírita Brasileiro estão teses sobre supostas reencarnações de Allan Kardec. Alguns acreditam que ele reencarnou como Chico Xavier, a fim de complementar a obra. O que o Senhor pensa disso? O Espiritismo é doutrina de liberdade de pensamento, e isto é motivo de muito júbilo para todos nós, os seus adeptos, facultando a cada espírita formular conceitos próprios e ter opiniões respeitáveis em torno dos mais variados assuntos, sem submissão a qualquer autoridade terrestre. Felizmente não temos chefes nem teólogos que interpretem a Doutrina por nós. O livre exame dos textos é nossa conquista cultural e ética. 10) Qual a melhor homenagem a O Livro dos Espíritos em seus 150 anos? A melhor homenagem que podemos prestar a O Livro dos Espíritos, por ocasião do seu sesquicentenário de lançamento em Paris, no dia 18 de abril de 1857, é divulgá-lo, o mais amplamente possível, apresentando-o à sociedade contemporânea como sendo o marco inicial da Era do Espírito imortal na Terra. Isto feito, viver-lhe os ensinamentos de forma que nos tornemos verdadeiros espíritas.
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