2008-04-26 Em que você acredita?

Em que você acredita?


Deus existe para 95% dos brasileiros, mas 51% crêem também em mau-olhado

Por Cláudia Soares

Natal é para a maioria dos brasileiros a principal data religiosa, mas, diante de uma sociedade cada vez mais materialista, muitos ignoram o lado espiritual dessa festa e a vêem apenas como uma época de trocar presentes. Há quem diga que as questões religiosas já não despertam tanto interesse, mas será que a sociedade não dá mesmo atenção à vida espiritual? Afinal, a fé é coisa do passado ou não?

Uma pesquisa exclusiva de Seleções, realizada também em 14 países da Europa e na Argentina, investiga quais são as crenças do homem moderno no que se refere ao plano invisível e revela que 95,3% dos brasileiros crêem em Deus.

No Brasil, a pesquisa foi realizada pela Internet com 2.600 pessoas maiores de 18 anos, das cinco regiões do país. A metodologia do levantamento permitiu aos entrevistados refletir sobre suas crenças e responder por escrito a algumas questões.

"Há uma tendência de individualização da espiritualidade no mundo ocidental. As pessoas vivem suas crenças na intimidade, sem vínculos com instituições - por exemplo, lendo textos sagrados ou fazendo meditação em casa", afirma o professor Lísias Nogueira Negrão, coordenador do Centro de Estudos da Religião Duglas Teixeira Monteiro, da USP. E acrescenta: "Por aqui isso é mais acentuado: o brasileiro constrói o próprio cardápio religioso, combinando elementos de diversas religiões. É muito grande o número de pessoas com alguma duplicidade religiosa."

A grande questão "Deus existe?", 95,3% dos consultados deram uma resposta firme e categórica: "Sim."

"Deus, para mim, é uma certeza, um pai amoroso, zeloso, infinitamente justo e bom. Ele nos orienta, mas também nos chama à responsabilidade por intermédio de nossa consciência", diz o espírita Jessé Nunes Queiroz, 45 anos, do Rio de Janeiro.

Dos 16 países pesquisados, a porcentagem dos brasileiros crentes em Deus só é menor do que a registrada na Polônia (97%). A média dos europeus que crêem em Deus é de 71%. (O índice mais baixo é o da República Checa - com apenas 37% - e Portugal é o segundo mais fervoroso - 90% acreditam em Deus -, seguido surpreendentemente pela Rússia, que tem 87% de fiéis, 15 anos após o desmantelamento do regime comunista.) Na Argentina, o índice chega a 74% e nos Estados Unidos, país de tradição cristã, outra pesquisa apurou 79% de crentes em Deus.

Apenas 1,3% dos brasileiros pesquisados foram enfáticos ao responder "Não" à pergunta sobre a existência de um ser supremo. "Deixei de crer há cerca de dez anos, quando me dei conta da realidade do mundo. Não acredito em espiritualidade, e sim na ciência. Acho que para tudo existe uma explicação lógica", defende o ex-católico Danilo Neder, 21 anos, representante de vendas em Friburgo (RJ).

De acordo com o IBGE, nos últimos 40 anos o número dos sem-religião no Brasil saltou de 0,5% para 7,4% da população. A falta de uma religião, no entanto, não significa que o brasileiro esteja se tornando ateu. De acordo com o estudo Mudança de religião no Brasil - desvendando sentidos e motivações, do Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (Ceris), dos brasileiros que se consideram sem-religião, menos de 1% se diz ateu.

Quarenta e cinco por cento dizem ter uma espiritualidade própria, sem vínculos com instituições. "O estudo mostra que a discordância de princípios, normas e doutrinas leva ao abandono da religião. Dos sem-religião, 80,1% já haviam sido vinculados a uma. Hoje existe a valorização de uma religiosidade independente", ratifica a socióloga Sílvia Regina Fernandes, professora do Instituto Multidisciplinar da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Entre os sem-religião que responderam à pesquisa, Wilson Vidurrizaga Teles, 49 anos, não esconde sua decepção com as crenças tradicionais. "Acho que religião está virando um simples comércio. Não vejo necessidade de entrar numa igreja; para mim, é mais sensato me recolher e ler a Bíblia sozinho, na minha casa", afirma o inspetor de qualidade, que vive em Paranaguá (PR).

Se Deus tem muitas faces, as definições sobre o que Ele significa para cada pessoa também são infinitas. A maioria dos consultados (65,7%) acha que Deus é amor e, para 59,9%, Ele está presente na natureza. "Para mim, é um ser supremo, algo que não vemos, mas sentimos que existe. É como o ar", define a advogada Marivone Oliveira, 47 anos, de Recife (PE). A maioria também exalta Deus como um ser justo (59,7%); que dá livre-arbítrio (55,7%); que existe em nosso interior (46%); e é uma força impessoal (32,5%).

"Deus é um pai que ama seus filhos e espera que eles um dia cheguem à perfeição, pois assim os criou", escreveu a nutricionista Celina Viezzer, 60 anos, de Porto Alegre (RS).

Cada vez mais exercer a própria fé independe de pertencer a uma religião. Somos mais de 125 milhões de batizados na religião católica, segundo números do censo de 2000, mas, de acordo com estudo do Ceris, somente 29,3% declaram ir à missa pelo menos uma vez por mês.

"Já freqüentei muito a missa, mas hoje meu contato com Deus é direto: a qualquer momento que quiser, posso orar", diz o jornalista Luiz Ari Teixeira, 49 anos, de Ponta Grossa (PR).

Em outros países de grande tradição católica, como a Irlanda ou a Polônia, que também contam com uma significativa maioria de pessoas batizadas no catolicismo, mais de 60% delas vão regularmente à missa.

Para os brasileiros, a vida cotidiana da fé se expressa em outro leque de possibilidades muito amplo, que se estende bem além das paredes de um templo.

"Raramente vou à missa, mas não vivo sem Deus. Agradeço a Ele ao acordar, várias vezes durante o dia e ao me deitar. Aprendi a não me queixar da vida: sei que Deus sabe o que faz e sempre nos favorece", afirma a universitária Goretti Andrighetti, 37 anos.

Esse testemunho coincide com o de muitos outros consultados na pesquisa, que, embora não participem ativamente de um culto, dedicam parte de seu tempo à vida interior e espiritual. Basta ver que 93,7% acreditam no poder das orações.

Mas se a pesquisa de Seleções não deixa dúvidas de que Deus existe para quase todos os brasileiros, ela também mostra alguns traços particulares de nossa religiosidade: num país 74% católico, somente 58,2% acreditam na vida após a morte. "Deus para mim é tudo, mas acho que a vida só tem significado se houver outra após esta aqui. As pessoas que a gente ama, e que já morreram, devem estar olhando por nós", pondera o católico Maurílio Pedro Leite, 39 anos, fiscal da Secretaria da Fazenda, de Penha (SC). Já o veterinário Marcos Paulo Pinheiro, 30 anos, de Salvador (BA), é como São Tomé: "Creio em Deus e agradeço a Ele tudo o que me acontece de bom, mas para mim a gente nasce, cresce, se reproduz e morre. Depois, acabou. Precisaria ver para acreditar que existe vida após a morte."

A sondagem revelou ainda que mais da metade dos internautas consultados crê na força do destino (52,9%) e em mau-olhado (51,5%).

"A fé dos brasileiros não está num Deus transcendental que protege e cobra um comportamento ético. Há uma expectativa mágica em relação a Deus, daí podermos coagi-lo com promessas, oferendas ou gestos como bater na madeira", explica o professor Eurico Gonzalez dos Santos, do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília.

Metade dos participantes afirmou acreditar que o Céu, ou Paraíso, é uma realidade e que os espíritos do bem existem; e um número muito próximo (48%) crê também na existência de espíritos malignos.

"Eu acredito em tudo: espíritos, feitiçaria, horóscopo e até em simpatias, que já fiz e funcionaram. Às vezes também acendo uma vela para meu anjo da guarda", confessa a artesã Verônica Quintana, 21 anos, de Foz do Iguaçu (PR).

O rol de crenças não pára por aí: 38% dos consultados acreditam em passes (ato de passar as mãos repetidas vezes diante ou acima de uma pessoa, com o objetivo de magnetizá-la ou curá-la pela força mediúnica) e em previsões do futuro por meio de: horóscopo (22,6%), quiromancia (16,3%) e tarô (15,9%).


Você crê em Deus? Sim.

Polônia - 97%
Brasil - 95%
Portugal - 90%
Rússia - 87%
Áustria - 84%
Espanha - 80%
Suíça - 77%
Argentina - 74%
Finlândia - 74%
Hungria - 73%
Alemanha - 67%
Reino Unido - 64%
França - 61%
Bélgica - 58%
Países Baixos - 51%
República Checa - 37%


Você crê em vida após a morte? Sim.

Polônia - 81%
Áustria - 67%
Suíça - 64%
Espanha - 60%
Brasil - 58%
Reino Unido - 58%
Portugal - 57%
Finlândia - 51%
Rússia - 51%
França - 45%
Países Baixos - 45%
Alemanha - 43%
Hungria - 43%
Bélgica - 37%
República Checa - 36%


Eu creio num Deus que...

É amor - 65%
Está presente na natureza - 60%
É justo - 59%
Nos dá livre-arbítrio - 55%
Está presente no interior do homem - 46%
É uma força impessoal - 32%
Recompensa os bons e castiga os maus - 14%
É uma pessoa - 7%


O brasileiro acredita em...?

Poder das orações - 93%
Mau-olhado - 51%
Poder dos passes - 38%
Horóscopo - 22%
Bruxaria e feitiços - 21%
Quiromancia - 16%
Tarô - 16%
Correntes de e-mails - 10%

Matéria publicada na Revista Seleções.


José Antonio M. Pereira* comenta

A pesquisa já faz mais de um ano, porém ainda vale um olhar sobre suas conclusões, pois o cenário possivelmente não mudou até esse momento. A matéria da revista Seleções destaca como uma das suas principais constatações que 95% dos brasileiros crêem em Deus, ao mesmo tempo que 51% acreditam em mau-olhado. Diz ainda que, apesar disso, estamos "diante de uma sociedade cada vez mais materialista", ao observar alguns hábitos mais comuns durante a época do Natal por exemplo.

Este percentual da crença em Deus pode ser considerado um bom número para qualquer cristão, afinal, depois da Revolução Científica, o materialismo parecia ter destruído não só o poder religioso até então vigente, mas também a própria Fé. Segundo os estudiosos do fenômeno religioso, o que ocorreu foi a chamada secularização(1), quando a religião deixou de ser o guia principal da sociedade. A “verdade”, antes ditada pela tradição religiosa, passou a vir do laboratório científico. A promessa da felicidade que viria para os salvos no paraíso deu lugar à tecnologia que era capaz de transformar as descobertas científicas em conforto, segurança e saúde para as pessoas. A Ciência resolveria todos os nossos problemas, já que Deus não existia mais.

Mas não foi bem assim. Chegamos ao século XXI e nem o poder religioso diminuiu tanto e nem a Fé desapareceu. Apesar dos avanços científicos, os núcleos religiosos se multiplicaram e até mesmo novas religiões surgiram. E elas não se mantêm até hoje graças apenas as velhas gerações, mas tem uma participação considerável de jovens. Por sua vez, a Ciência também não resolveu nossos problemas e nem respondeu à Humanidade de onde viemos, para onde vamos e quem somos. O resultado da pesquisa é um reflexo disso. Continuamos acreditando em Deus. E do ponto de vista Espírita isso é natural, já que a idéia da existência de um Ser Superior é inata no homem; logo seria necessário muito mais que a opinião de alguns acadêmicos para derrubar esta crença.

Mas se a sobrevivência da Fé é um ponto positivo, ao mesmo tempo ainda acreditamos em superstições, numa época de tantos avanços científicos. Ocorre que superstições e crendices nem sempre são fatos explicáveis pelas Leis que regem o mundo material, muitas vezes são coisas que simplesmente ainda não compreendemos. Ora, se a Ciência nos possibilitou entender os fenômenos naturais no que concerne ao mundo material, falta-nos o conhecimento que nos permita compreender as Leis que regem aquilo que não é matéria. E é nesse ponto que a Doutrina Espírita pode nos ajudar. Segundo Allan Kardec, ela pode ser definida como “uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal”(2). Ela tem condições de promover uma aliança entre essas duas áreas do conhecimento aparentemente antagônicas: a Ciência e a Religião. É o que Kardec deixa claro quando diz: “A Ciência e a Religião são as duas alavancas da inteligência humana: uma revela as leis do mundo material e a outra as do mundo moral. Tendo, no entanto, essas leis o mesmo princípio, que é Deus, não podem contradizer-se”(3). Assim, o estudo da Doutrina Espírita nos possibilita acabar com a ignorância acerca dos fenômenos ditos sobrenaturais. A pesquisa da revista Seleções pode ser encarado como um indicador da importância desse estudo. Não para que todos se tornem espíritas, mas para que o conhecimento espírita ajude a todos independente de sua religião.

E que recursos precisamos para obter esse conhecimento? O primeiro recurso é a chamada Codificação, as cinco obras básicas codificadas por Allan Kardec: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, A Gênese e O Céu e o Inferno. O segundo é o Movimento Espírita, que é o conjunto de ações e instituições que promovem a divulgação, o estudo e as demais atividades espíritas. A Codificação é o roteiro seguro para sabermos realmente o que é Doutrina Espírita, num mundo que nos bombardeia de informações constantemente. O Movimento nos permite agir em conjunto, compartilhar experiências, melhorar nossa visão acerca dos princípios espíritas, ao entrar em contato com a visão dos outros, além de propiciar meios de praticar estes princípios.

Este mesmo estudo irá nos revelar que ele não é um fim em si mesmo; que não basta obter o conhecimento intelectual sobre esse assunto. O Espiritismo, mais que compreendido, precisa ser sentido, para que nos apercebamos de seu objetivo maior: a reforma moral da humanidade. Trata-se de um saber que nos tornará mais felizes, como podemos depreender das palavras de Jesus: "E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará."(4)


Referências:

1 - Secularizar: tornar secular ou leigo (o que era eclesiástico); sujeitar à lei comum, à lei civil; laicizar; - Língua Portuguesa On-Line: http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx;
2 - O que é o Espiritismo, Preâmbulo – Ed. FEB, Allan Kardec;
3 - O Evangelho segundo o Espiritismo, Cap I, item 8 – Ed. FEB, Allan Kardec;
4 - Evangelho segundo João, 8:32.

*  José Antonio M. Pereira é espírita há 28 anos, tendo atuado principalmente na área de evangelização juvenil. Atualmente, é integrante da Casa de Emmanuel, no Rio de Janeiro, e da equipe do Serviço de Perguntas e Respostas do Espiritismo.net.



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