2008-02-11 O que compromete a credibilidade da mensagem espírita
O que compromete a credibilidade da mensagem espírita
1) Os espíritas têm estudado a codificação da Doutrina Espírita? Como conscientizar os trabalhadores espíritas da necessidade de se estudar primordialmente as obras básicas da codificação? Aqui é muito mais importante a pergunta do que minha visão pessoal. Esse questionamento, se feito repetidamente, no âmbito íntimo e do Centro Espírita, levará sempre a bons resultados. Não se pode conhecer Espiritismo sem Allan Kardec, como não se pode começar a construir um prédio de seu último andar. Além de fundamentais, se corretamente estudadas, as obras básicas do Espiritismo são de agradabilíssima leitura e de aplicação imediata nos temas interessantes e necessários do dia a dia. "Redescobrir Kardec", acredito - e espero - que seja a expressão de ordem da nova geração de espíritas que já estão entre nós.
A diferenciação que Allan Kardec faz na conclusão de O Livro dos Espíritos, e repete em O Livro dos Médiuns, reflete muito mais o interesse pela Doutrina Espírita, ou a dedicação real que se dá ao Espiritismo, do que propriamente uma diferença de capacidades dos percipientes, já que as informações espíritas são muito simples e claras e entre suas lides encontram-se doutores e pessoas de menor escolaridade formal e, não raro, esses últimos aplicam melhor o conhecimento espírita em sua vida do que os primeiros. Essa diferença deve-se, portanto, a quanto nos deixamos tocar pela mensagem espírita e o quanto estamos dispostos a mudar nossa vida frente às revelações que ela nos traz. É uma questão de vontade - assim posto, fica mais difícil justificar a postura com um eventual atraso espiritual.
Nem todos têm a profundidade de um Allan Kardec, que permite a todos os níveis culturais uma leitura atenta e proveitosa de sua obra, mas podemos nos espelhar nele. A experiência tem mostrado que quando usamos termos simples para explicar coisas complexas tornamos nossas exposições agradáveis a todos - o mais experiente dela extrai novas visões para suas reflexões e o mais novato o estímulo ao estudo. Tal o caráter das palestras e cartas escritas por Allan Kardec para que nos espelhemos nele. Isso não significa que o Centro Espírita não deva oferecer outras oportunidades de estudo mais aprofundado, o que é sempre salutar.
Responderei com Pestalozzi: 1) Ame o que vai falar; 2) Conheça o objeto de sua fala; 3) Fale de forma simples e amorosa, "da forma como uma mãe carrega um filho". O que comove na Doutrina Espírita é sua simplicidade e sua aplicação direta nos problemas da vida. Levando a mensagem espírita, ela fará o resto, porque mesmo com as pequenas diferenças intelecto-morais, os homens todos têm as mesmas aspirações íntimas por respostas e por felicidade.
Allan Kardec estabelece claramente o que é ser espírita. Vale somente lembrar mais uma vez que é uma questão de vontade, de esforço e não pressupõe nenhuma necessidade excepcional já adquirida. A reflexão se somos ou não espíritas segundo esse critério é individual.
Sendo feito para toda a humanidade, o Espiritismo é democrático. A mesma filosofia que agrega Espíritos iluminados e abnegados também é oportunidade para almas atrasadas e ignorantes, que não só não compreendem o objetivo da Doutrina Espírita, como a buscam utilizar para sua promoção pessoal. Infelizes desses, que serão duplamente culpados, porque viram a luz e optaram pela treva. Repetirei com um conhecido orador espírita: "eles desencarnarão". Façamos a nossa parte, por hora e oremos por eles.
Existe essa idéia, falsa e que felizmente está sendo abandonada, de que seriedade é sinônimo de sisudez (obrigado aos jovens espíritas!). O que você chama de "pró-humanização" eu chamo de Espiritismo, que sempre foi uma Doutrina absolutamente humana, que estabelece a Lei de Sociedade como base para a Lei de Progresso (veja que uma antecede a outra na parte terceira de O Livro dos Espíritos). Ou seja, o contato entre os Espíritos é absolutamente fundamental para o crescimento de todos. A redescoberta da proposta humanista da filosofia espírita pode ser um remédio para as dissidências ainda existentes por conta do orgulho e do egoísmo, repetindo Jesus: "Meus discípulos serão conhecidos por muito se amarem".
Abro mão de comentar os sincretismos religiosos nos quais somos especialmente capazes e me aterei aos centros espíritas. O Brasil modificou a prática espírita de forma muito notória - ou seja, se Allan Kardec entrasse hoje num Centro Espírita brasileiro, demoraria um tempo até entender que nasceu da Doutrina que ele codificou. Duas práticas que se vêem hoje em dia: o passe e água magnetizada (ou "fluidificada") nasceram de dois imperativos - um dito por Kardec da proximidade entre o Magnetismo e o Espiritismo e outra social na busca da substituição da comunhão e da água benta. Não discuto sua utilidade ou aplicabilidade dentro das sociedades espiritistas, apenas é importante que reflitamos em relação a isso e aos demais pontos, a cada dia, se são de fato práticas porque nascem de uma utilidade ou se se transformaram em rituais, sobre os quais somos incapazes de entender o objetivo. Se essa reflexão for constante, o efeito é salutar; se for esquecida, é devastador.
Só o conhecimento combate a ignorância. O estudo das obras espíritas e a imersão no pensamento de Allan Kardec.
De forma geral, que tenho visto, não. A raiz religiosa do povo brasileiro permite que a finalidade moral ("básica") do Espiritismo seja preservada, embora alguns serviços como a evocação de entes queridos, a análise das mensagens mediúnicas, a união dos médiuns promovendo o controle universal dos ensinos dos Espíritos, entre outros, estejam esquecidos. A médio prazo esse afastamento de práticas fez surgir um fenômeno interessante, em que passamos a "depender" de informações de um só ou dois Espíritos, por "médiuns consagrados", o que, por si só, impede a atualização e a revisão dos pontos da Doutrina Espírita, porque reflete, por melhor que sejam os médiuns, a opinião de um reduzido número de entidades espirituais. O ressurgimento ou o descongelamento do Espiritismo passa, entretanto, por um necessário resgate que começa com o estudo profundo de Allan Kardec.
Se o centro espírita for "ortodoxo" ("fiel às bases"), ele se adequará ao progresso tecnológico e científico. As duas coisas, longe de serem contrapontos, são complementares. É exatamente isso que via Allan Kardec que, além de pregar, também realizou, utilizando todos os meios à sua disposição na época para a aplicação dos conceitos de análise e divulgação do Espiritismo. Não gosto, entretanto, de qualquer denominação diferente de "espírita" - essa palavra deveria resumir tudo.
Altivo Pamphiro, ex-presidente do Centro Espírita Léon Denis, do Rio de Janeiro, disse certa vez: "Está em Kardec, nós fazemos; não está, nós não fazemos". Deixo essa frase do querido amigo como orientação básica.
Da forma como deve ser entendido. Essa prevenção de que você fala é qualquer coisa, menos espírita. Veja como é sábio Allan Kardec - respondeu há quase 150 anos aos argumentos que ainda são vistos hoje.
Estamos num estágio em que essa prática não pode ser retomada de imediato. Os passos a se seguir são: 1) Estudar a Doutrina Espírita, aprofundar-se nos princípios espíritas e no método kardequiano pelas obras básicas, Revista Espírita e O que é o Espiritismo - estudo individual e em grupo; 2) Preparar os médiuns com um desenvolvimento mediúnico aos moldes de "O Livro dos Médiuns", em especial prestando atenção aos detalhes, buscando informações desde cedo em testes com nomes de desencarnados e encarnados, atentando à mudança de caligrafia, às sensações dos médiuns, etc, sem preconceitos e sem tabus; 3) Estabelecer um grupo-teste, buscando concentrar-se em exercícios de percepções medianímicas conjuntas, seguindo o princípio de Kardec de que "uma reunião é um ser coletivo". Ajustar o grupo pelos padrões de entendimento e bem querer para aumentar a força de percepção deste; 4) Quando o grupo começar a ter resultados, buscar prestar esse serviço ao público, seja mediunicamente, seja animicamente, até que este adquira confiança em si mesmo e possa desenvolver a tarefa. Vale dizer que é um dos pilares da mediunidade: seu uso no consolo do próximo. A "mediumlatria" trouxe esse efeito colateral: desenvolvimento mediúnico inadequado, incompleto ou tolido.
Nada há que impeça tais comunicações, mas todo exercício da mediunidade deve antes ter uma finalidade útil e séria. Qual seria a finalidade do intercâmbio? Trazer consolo aos presentes? A prudência diz que, se for esse o caso, o ideal seria submetê-la a uma análise de um grupo treinado para isso, corrigi-la, julgá-la para só lê-la na semana posterior. Isso teria dupla vantagem: evitar-se-ia a divulgação de algum erro mediúnico ou idéia estranha vinda dos Espíritos e exercitaria um grupo no importante trabalho de análise mediúnica, base para o Controle Universal dos Ensinos dos Espíritos, um desdobramento desse exercício.
Como Allan Kardec fazia: com lógica, bom senso, método e sem preconceitos. Em 2008 comemoramos os 150 anos da Revista Espírita, que permanece sendo o mais perfeito exemplo de divulgação espírita até hoje. Allan Kardec publicava nela até artigos contrários ao Espiritismo, desde que considerados sérios e eximia-se de julgamentos precipitados sobre as coisas, embora as analisasse em termos de possibilidades. Com esse bom senso, a relação com a mídia será lenta, mas sólida, sem apelações mercadológicas que são muito mais nocivas do que úteis à Doutrina Espírita.
Analisando Allan Kardec, que utilizou todos os meios à sua disposição para a propagação da idéia espírita. Se estivesse hoje entre nós, certamente utilizaria a Internet, já que o meio é pouco importante frente ao fim da divulgação em si.
Chego à conclusão de que o retorno a Allan Kardec está nas mãos dos jovens. As jovens Julie e Caroline Baudin e Ermance Dufaux foram as principais médiuns da codificação (entre 14 e 16 anos). Chico Xavier mostrava-se médium natural desde os 4 anos. Florence Cook colocou-se à disposição da incredulidade do Sir William Crookes com 14 anos de idade. Pelos jovens é que a Doutrina Espírita sempre colocou-se em movimento e é com muitíssima satisfação que vejo a inquietação dos jovens buscando informações e surpreendendo-se com a coerência de Allan Kardec. O centro espírita que alijar o jovem desse importante processo, deixando de dar-lhe oportunidade, estará cometendo um suicídio institucional. O dirigente que lhe obstar o desenvolvimento assumirá todas as conseqüências de sua loucura e dos que deixarem de ser atendidos em razão dela. "Deixai vir as mim as criancinhas", disse Jesus. Deixai ir a Kardec os jovens!
É uma pergunta que cada casa tem que se fazer e, caso receba uma resposta negativa, tomar as rédeas e ousar mudar.
Caso não esteja cumprindo, a culpa certamente não é nem da Doutrina nem de Allan Kardec. É uma reflexão íntima.
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