2008-01-25 Alemanha envia jovem infrator para reeducação na Sibéria

Alemanha envia jovem infrator para reeducação na Sibéria


Jamil Chade

Genebra - A decisão da Alemanha de enviar um adolescente à Sibéria está causando polêmica na Europa. As autoridades da cidade de Giessen, na parte central da Alemanha, anunciaram que enviaram um jovem ao norte da Rússia para que ele possa repensar seu comportamento violento. A criminalidade entre jovens se transformou nas últimas semanas em um dos principais temas da campanha para as eleições regionais na Alemanha.

O envio de pessoas à Sibéria era uma prática comum durante o regime soviético e servia de punição até mesmo a intelectuais que ousavam questionar o Kremlin. A surpresa para os defensores de direitos humanos agora é que a decisão foi tomada por um governo democrático. O adolescente de 16 anos não está preso. Mas permanecerá nove meses na cidade de Sedelnikovoa, com 5 mil habitantes.

Segundo o jornal alemão Sueddeutsche Zeitung, o jovem terá de caminhar todos os dias 2,5 quilômetros até sua nova escola. Em sua casa não há água encanada nem banheiro. O aquecimento para fugir do frio siberiano é feito com lenha. "Isso não é uma punição, mas uma experiência educacional intensiva", afirmou o diretor do departamento de políticas sociais de Giessen, Stefan Becker, ao jornal alemão. "Queríamos tirá-lo da sociedade consumista. Se ele não cortar lenha, não terá como se aquecer. Se não for buscar água, não tem com que se lavar. As condições de vida são semelhantes às que existiam há 40 anos", disse.

O jovem, que cometeu uma série de atos violentos contra colegas de escola e mesmo contra sua mãe, teria sido diagnosticado como "patologicamente agressivo". As autoridades garante que o rapaz aceitou ir para a Sibéria como parte do tratamento e que, ao retornar para a Alemanha, ficará ainda por dois anos sendo monitorado. A decisão de mandar jovens agressivos para outras partes do mundo começou na Alemanha em 2006 e, apenas no ano passado, 600 adolescentes foram enviados para o exterior. Os dados são da entidade alemã AGJ - Associação para o Bem-Estar dos Jovens, que indicam que esses adolescentes estão sendo enviados para a Grécia, África e países do Cáucaso.


Desigualdade

"A criminalidade está aumentando por causa da diferença social entre os jovens do leste e do oeste da Alemanha, entre os imigrantes e pela falta de empregos. O envio para o exterior como uma experiência de vida pode ser uma solução para esses adolescentes, mas precisa ser acompanhada de perto por especialistas e ter um padrão mínimo", afirmou à AE Sabine Kummetat, representante da AGJ. Segundo ela, não há por enquanto registros de alemães sendo enviados ao Brasil.

Os alemães não escondem que já não sabem o que fazer para lidar com o crime entre os jovens. O tema chega a fazer parte da campanha para as eleições estaduais que ocorrem no final do mês. O partido da chanceler Angela Merkel defende a adoção de leis mais duras contra o crime juvenil, inclusive com a expulsão de imigrantes.

Notícia publicada pela Agência Estado, em 18 de janeiro de 2008.


Jaqueline Leal* comenta

Comportamentos desequilibrados e violência entre adolescentes de certo nível sócio-cultural vem preocupando todas as autoridades do mundo. Esse fenômeno, antes esparzo (ou, talvez, pouco conhecido, devido às dificuldades de comunicação dos séculos passados), hoje em dia está em voga nos meios de comunicação, demonstrando a ineficiência de algum setor da sociedade que os governantes ainda não conseguiram descobrir.

O governo alemão está optando por exilar seus jovens violentos, achando que a sociedade consumista é o grande vilão da violência infanto-juvenil. Entretanto, as causas desse comportamento são muito mais profundas e a simples laborterapia não será suficiente para diminuir os ímpetos agressivos dos jovens. Pode, sim, sufocá-los durante algum tempo, talvez durante toda uma encarnação, mas não erradicarão o problema, já que seu cerne está no Espírito imortal e em todas as suas experiências passadas.

Podemos, inclusive, arriscar-nos a afirmar que, em alguns casos, esse exílio pode potencializar a agressão do jovem, que estará sendo forçosamente retirado do convívio daqueles que o amam, para tornar-se repentinamente um adulto do início do século XX em plena vigência da sociedade tecnológica do século XXI.

Para que um jovem revoltado e rebelde, que comete atrocidades contra seus semelhantes, possa realmente ser ajudado, é necessário um trabalho dinâmico de auto-conhecimento e reforma de valores morais. Estamos aqui falando em moralidade como base da formação do cidadão de bem, como uma das vertentes da evolução espiritual e como necessidade para se alcançar a felicidade e cujas bases mesmo um governo laico pode desenvolver.

Contudo, sabemos que o conhecimento da realidade espiritual faz uma enorme diferença no nosso proceder. Basta que vejamos os jovens que foram evangelizados lado-a-lado com aqueles que cresceram sem direcionamento moral-evangélico (especialmente espírita) que a diferença de comportamento é de saltar aos olhos.

A esse respeito, os Espíritos Luminares que colaboraram com a Codificação Espírita nos esclarecem que "a moral é a regra da boa conduta e portanto a distinção entre o bem e mal funda-se na observação da lei de Deus". Em decorrência direta desta informação, percebemos com clareza que a noção do próximo e da empatia, que é  o colocar-se no lugar do semelhante e compreendê-lo como se estivesse vivendo sua situação, é imprescindível para o desenvolvimento da moral.

Se analisarmos a conduta do governo alemão sob esse prisma, indagamos de nós mesmos se cortar lenha e caminhar 2 horas e meia por dia serão suficientes para o seu desenvolvimento moral. Sim, colaborarão para que ele tenha momentos de reflexão e de ocupação saudável, até porque os Espíritos nos esclarecem que o trabalho é uma lei da Natureza (questão 674) e que o desgosto da vida que se apodera de alguns indivíduos é "efeito da ociosidade, da falta de fé e geralmente da saciedade" (questão 943); entretanto, não basta a ocupação pura. Como disseram os Espíritos, isso é resultado também da falta de fé e da saciedade, que é o ter sempre tudo o que quer.

Joanna de Ângelis, no livro "Adolescência e Vida", resumidamente nos dá a proposta que efetivamente pode modificar o comportamento violento dos jovens de hoje em dia:

"A harmonia que se deve estabelecer entre o físico e o psíquico, libertando o adolescente da violência existente no seu mundo interior, será conseguida a esforço de trabalho, de orientação, de vivências morais e espirituais, o que demanda tempo e amadurecimento, compreensão e ajuda dos adultos, sem imposições absurdas, geradoras de outras agressões."

Essa medida do governo alemão, que pode se expandir para outros países, é ineficiente e pode comprometer a recuperação adequada desses jovens. O ideal seria mantê-los no aconchego de seus próprios lares, com direcionamento adequado de adultos bem equilibrados, que pudessem proporcionar vivências de empatia e de desenvolvimento de interesse pelas necessidades dos menos afortunados da sorte, principalmente através de trabalhos voluntários que os beneficiassem. Assim, as chances de recuperação do adolescente integral serão mais prósperas e eficazes.

*Jaqueline Leal é servidora pública estadual, espírita há 14 anos, trabalhadora do Espiritismo.Net, articulista, expositora espírita e evangelizadora infantil.



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