2008-01-25 Menor mata irmão ao brincar com arma

Menor mata irmão ao brincar com arma


Celso Martinelli
Da Sucursal

SETE LAGOAS - Uma brincadeira com arma de fogo acabou em tragédia em Sete Lagoas, no Bairro Belo Vale. Um adolescente de 15 anos atirou acidentalmente contra o irmão de oito anos com o revólver do padrasto, acusado de ser traficante de drogas. O acidente ocorreu na noite da última quarta-feira, mas M.J.S.C. morreu na madrugada de ontem, no Hospital Municipal.

De acordo com o boletim de ocorrência, os irmãos estavam sozinhos na casa da mãe, que é separada do pai do meninos. Em seu depoimento, D.H. afirmou que procurava dinheiro em cima do guarda-roupa e encontrou um revólver calibre 32, que seria do padrasto, F.G.S.R, 25 anos. «O menor disse que, em cima do guarda-roupa, sempre havia dinheiro, já que o atual companheiro de sua mãe vendia drogas», disse a Delegada de Crimes Contra a Pessoa, Mariza Rocha Andrade.

Com a arma, D.H. chamou o irmão para brincar. Ele disse que pensou que o revólver estava descarregado e disparou contra M.J.S.C. O Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu) foi acionado, e o menor chegou ao hospital com quadro de morte cerebral e não resistiu ao ferimento na cabeça.

No momento da tragédia, a mãe dos garotos, J.A.P.S., 31 anos, estava trabalhando, em um supermercado. Ela afirmou à polícia que havia conhecido o padrasto das crianças há um ano e eles decidiram morar juntos. Conforme apurou a reportagem, uma testemunha que pediu para que não fosse identificada teria visto a mãe dos meninos telefonar para o companheiro e dizer: «Não venha aqui, a barra está suja».

De acordo com a delegada Mariza Andrade, o dono da arma estaria envolvido com o tráfico de drogas. Durante buscas na casa, a polícia encontrou oito barras de maconha (aproximadamente 300 gramas). Até o fechamento desta edição, o padrasto dos meninos continuava foragido. O adolescente que atirou foi apreendido e encontra-se no Centro de Internação Provisória. D.H. vai ficar à disposição do Juizado da Infância e Juventude. Ele foi autuado pelo delegado de plantão, Gilmar de Jesus Arcanjo, por homicídio culposo. A mãe das crianças também está presa e pode responder, entre outros delitos, por associação ao tráfico e omissão de cautela. Ela negou ser proprietária da droga apreendida.

O velório foi marcado por comoção e desespero. O pai das crianças, o motorista J.R.C., relembrou os últimos momentos antes da morte de M.J.S.C. «Fiquei até as quatro horas da madrugada esperando que ele se recuperasse, quando recebi a péssima notícia», disse. Ele agora tenta conseguir a liberdade de D.H. «Ele não tem culpa nenhuma; também não culpo a mãe dele. Sua grande falha foi ter colocado um vagabundo dentro de casa. Mas confio na justiça de Deus», disse, chorando.

O menor foi velado na casa da avó, no Bairro Belo Vale, e enterrado no Cemitério Parque da Boa Vista. A mãe e o filho que efetuou o disparo foram levados, algemados, por uma guarnição da PM até o velório. A todo momento, o adolescente pedia perdão pelo que fez e perguntava pelo irmão.

Notícia publicada no Jornal Hoje em Dia, em 18 de janeiro de 2008.


Jaqueline Leal* comenta

Diante de uma situação tão dolorosa como essa, é inevitável que nos perguntemos: mas, por que acontecem essas tragédias? Isso estava previsto? Aquele menino tão pequeno estava fadado a morrer pelas mãos do próprio irmão?

Ao buscar essas respostas em "O Livro dos Espíritos", deparamo-nos com a questão 851, em que os Espíritos nos esclarecem que "a fatalidade só existe no tocante à escolha feita pelo Espírito, ao se encarnar, de sofrer esta ou aquela prova; ao escolhê-la, ele traça para si mesmo uma espécie de destino, que é a própria conseqüência da posição em que se encontra. Falo das provas de natureza física, porque, no tocante às provas morais e às tentações, o Espírito, conservando o seu livre-arbítrio sobre o bem e o mal, é sempre senhor de ceder ou resistir."

A partir desta resposta, podemos analisar a prova do menor morto e a do irmão que o matou sem querer.

Os dois solicitaram a prova da pobreza e da convivência num ambiente que favorecesse seu contato com o vício, já que optaram renascer filhos de uma mãe que já tinha a tendência da vida desregrada. O motivo desta escolha consta da questão 260 de "O Livro dos Espíritos": alguns Espíritos escolhem nascer entre "gente de má vida" porque "o semelhante atrai o semelhante, e para lutar contra o instinto do bandido é preciso que ele se encontre entre gente dessa espécie."

Assim, estamos falando de dois Espíritos que pediram a prova de resistir ao mal, ou que foram atraídos para aquele ambiente porque eram exatamente iguais aos seus ascendentes.

Pois bem. O menor adolescente, com sua atitude de procurar dinheiro da venda de drogas exatamente onde ele ficava escondido, já demonstrou, com esse ato, que estava observando seus iguais e que já estava começando a praticar atos desonestos, deixando vir à tona suas pré-disposições mórbidas do passado. Essa teoria é corroborada pela sua iniciativa de pegar a arma e fingir que atirava no irmão, demonstrando sua preferência pela violência e pela ausência de regras.

Entretanto, como nos esclareceu o Espírito de Verdade na questão 851, as provas de natureza moral sempre são passíves de serem mudadas, conforme a liberdade de agir do indivíduo. Naquele momento, como somos todos rodeados por uma grande nuvem de testemunhas, como disse Paulo de Tarso na sua carta aos Hebreus, capítulo 12, versículo 1, muito provavelmente o mentor espiritual do rapaz o sugeriu que não atirasse, mas também deveriam haver outros Espíritos sugerindo que o rapaz o fizesse. E ele optou em atirar.

Quanto ao menino pequeno, assim como seu irmão, escolheu viver entre aquelas pessoas por motivos que desconhecemos, mas que podemos supor serem sempre de crescimento, já que a lei é de progresso e não de punição. Entretanto, como os Espíritos disseram na já mencionada questão 851, o Espírito, ao escolher um tipo específico de prova, "traça para si mesmo uma espécie de destino, que é a própria conseqüência da posição em que se encontra."

Ora, a morte de uma criança normalmente tem duas finalidades: "o complemento de uma vida interrompida antes do tempo devido e (...) freqüentemente uma prova ou expiação para os seus pais" (questão 199 de "O Livro dos Espíritos"). Aquele menino, que necessitava da prova física de desencarnação prematura, colocou-se numa situação de perigo para sofrer a prova que pediu, que não era a de ser assassinado pelo irmão, mas a de desencarnar naquela idade, já que não sabemos o gênero de morte pela qual retornaremos ao mundo espiritual, mas sim nosso gênero de vida nos expõe a desencarnar mais de uma maneira do que de outra (questão 856 de "O Livro dos Espíritos).

Isso exclui qualquer especulação de que o irmão estava predestinado a matar o outro. A esse respeito, os Espíritos são bem claros na questão 861 de "O Livro dos Espíritos":

"(...) Ora, aquele que delibera sobre alguma coisa é sempre livre de a fazer ou não. Se o espírito soubesse com antecedência que, como homem, devia cometer um assassínio, estaria predestinado a isso. Sabei, então, que não há ninguém predestinado ao crime e que todo crime, como todo e qualquer ato, é sempre o resultado da vontade e do livre-arbítrio." (grifo nosso)

*Jaqueline Leal é servidora pública estadual, espírita há 14 anos, trabalhadora do Espiritismo.Net, articulista, expositora espírita e evangelizadora infantil.



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