2008-01-18 A religião faz mal ao mundo
A religião faz mal ao mundo
André Petry Dependendo do ângulo em que é observado, o filósofo americano Sam Harris, de 40 anos, exibe uma desconcertante semelhança física com o ator Ben Stiller, mas seu trabalho nunca está para comédias. Junto com o biólogo inglês Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio, Sam Harris é um dos mais ativos militantes contra as religiões. Em 2005, nos Estados Unidos, ele lançou O Fim da Fé e ficou mais de trinta semanas na lista dos mais vendidos do jornal The New York Times. Neste ano, produziu um novo best-seller com críticas à religião. Com 91 páginas, Carta a uma Nação Cristã, já lançado no Brasil pela Companhia das Letras, é um compêndio em defesa do ateísmo. É redigido com uma linguagem tão cortante e argumentos tão implacáveis que, por vezes, roça o panfletário, mas dá seu recado com clareza absoluta. O filósofo bate em cada um dos pilares da fé e conclui: "A religião agrava e exacerba os conflitos humanos muito mais do que o tribalismo, o racismo ou a política". Ele deu a seguinte entrevista: O movimento dos ateus é forte nos Estados Unidos e na Inglaterra, principalmente. É uma decorrência dos atentados de 11 de setembro de 2001? Por quê? O senhor acha que o mundo seria melhor sem religião, sem fé, sem crença em Deus? É possível conciliar ciência e religião? Haverá o dia em que a humanidade deixará de ter fé ou a fé faz parte da natureza humana? Mas nem a Bíblia nem o Corão se pretendem um manual científico para entender o mundo? Que tipo de impacto seu livro pode ter sobre os leitores religiosos? O Brasil é um país aparentemente tolerante com as diferentes religiões e conhecido pelo sincretismo religioso. Num país assim, é mais fácil ou mais difícil para o ateísmo crescer? Matéria publicada em Veja.com, em 26 de dezembro de 2007.
A Religião faz mal ao mundo? Os sucessos editoriais ateístas disparam na lista dos mais vendidos, revelando um fenômeno de renovação deste movimento. Muitas destas obras inspiram-se em argumentos trazidos por filósofos existencialistas como Sartre e Nietzsche, outras seguem a linha de pensamento de autores mais recentes, como Carl Sagan, em obras como O Mundo Assombrado pelos Demônios. O que há em comum nestas obras é: o uso de argumentos filosóficos para embasar o ateísmo; mostrar como historicamente as religiões têm causado transtornos à humanidade e usar argumentos científicos para embasar estas idéias fazendo questão de colocar ciência em posição oposta à religião. Este é um terreno delicado e é preciso colocar alguns “pingos nos is” antes de tecer qualquer comentário. Primeiramente é preciso separar ateísmo de oposição à religião. Acreditar em Deus não implica necessariamente em um vínculo formal com a religião, desta forma os argumentos contra a religião já não tem efeito sobre a crença na existência de Deus. Muitas pessoas deixam de acreditar em Deus por causa dos absurdos que foram feitos em nome Dele. A negação à existência da divindade também se deve a forma como as religiões apresentam Deus, fazendo com que seja ilógica e contraditória a sua existência. Quase sempre Deus é antropomorfizado e reflete as imperfeições humanas conforme a época e o contexto histórico. Porém, Deus não é o Deus das religiões. Dizer que a religião é um mal para o mundo é o mesmo que dizer que o Flamengo faz mal porque algum louco saiu atirando com uma metralhadora e usava a blusa do Flamengo. Sim, existem pessoas que sempre manipularam as religiões, pessoas que se escondem nas religiões para manter aparências ou conveniências sociais, pessoas que usam a religião como força política e meio de manipulação, pessoas que usam as religiões como meio de sobrevivência através da exploração da fé alheia. Mas todas estas coisas sempre existiram dentro e fora da religião; dizer que a religião não presta é o mesmo que dizer que a política não presta. Na verdade é sempre o mesmo e imperfeito “ser humano” que se fantasia de religioso, político ou do que quer que seja a fim de satisfazer seus interesses mesquinhos. Pelo menos nos meios religiosos encontram-se também pessoas sinceras, pessoas que estudam os maravilhosos conteúdos de suas religiões e que buscam aplicar estes conhecimentos para melhorarem a si e ao mundo. Qual a mensagem de esperança, ética e consolo que possui a doutrina materialista? Se o mal medra nas instituições religiosas, isso não impediu que ela trouxesse inúmeros benefícios e consolações à humanidade mesmo quando falamos das religiões formais. As religiões são supersticiosas e anti-científicas? Algumas sim. Não todas. Religiosidade não significa necessariamente anti-cientificismo como forçosamente afirmam os ateus. O que acontece é que a maioria dos ateus confunde espiritual com sobrenatural e classifica tudo o que é espiritual como algo que está fora da natureza e que só existe de maneira abstrata, na imaginação de quem acredita. Mas, os ateus pensam assim, porque, para a maioria dos “crentes” (crentes na existência de algo espiritual) o espiritual é realmente sobrenatural, o próprio Deus é percebido como sobrenatural. Eis aqui a primeira grande diferença entre o Espiritismo e a maioria das religiões. No Espiritismo, o Elemento Espiritual é real e faz parte da natureza, porém este elemento não é matéria. Na cosmologia espírita, Espírito e Matéria são elementos fundamentais da natureza, mas que possuem propriedades bem distintas. Não é apenas em algumas religiões que existe pseudo-cientificismo. Usa-se a ciência para embasar o discurso pseudo-científico do ateísmo. A ciência atual não tem nada a dizer sobre a “não existência” de Deus. Definitivamente não existem evidências de que Deus não exista e qualquer um que use argumentos darwinianos ou de qualquer tipo para fazê-lo na verdade desconhece a função e as limitações da ciência. Allan Kardec e Léon Denis são imbatíveis no que se refere à filosofia espírita e a afirmação de argumentos que sustentam o espiritualismo contra os argumentos materialistas. No texto As Cinco Alternativas da Humanidade, do livro Obras Póstumas, Kardec mostra como o “nada” é desprovido de sentido e como o Espiritismo é uma proposta completa de compreensão da vida. A obra O Grande Enigma (1911), de Léon Denis é uma grande referência; esta obra aborda de maneira ampla a existência de Deus. Camille Flammarion, em Deus na Natureza, também faz lógica e ao mesmo tempo poética narrativa sobre o assunto. Aos que querem leituras mais recentes, recomendamos também as obras de Herculano Pires e Hernani Guimarães Andrade. Fora do âmbito espírita, sobre a temática ciência e religião temos excelentes obras como Quando a Ciência Encontra a Religião, de Ian Barbour; Deus e a Ciência, de Jean Guitton; Vida Depois da Vida, de Raymond A. Moody Jr. e também os escritos do Dr. Ian Stevenson sobre reencarnação. Ao Espiritismo não faltam argumentos e obras que tem engrandecido com lógica e racionalidade a idéia da existência de Deus, da sobrevivência da alma e da lei de reencarnação. Neste caminho descobriremos que a ciência possui muito mais elementos que corroboram com estas idéias do que argumentos contrários e que, ao invés de prejudicar, o Espiritismo torna melhor o ser humano, mais responsável por seus atos e mais fraterno com seu próximo. *Breno Henrique de Sousa é paraibano de João Pessoa, graduado em Ciências Agrárias e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal da Paraíba. Ambientalista e militante do movimento espírita paraibano há mais de 10 anos, sendo articulista e expositor.
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