2007-11-23 Crime por Opção

Crime por Opção


Ecstasy: Psicólogos discutem o que leva jovens com todas as chances na vida a virar bandidos

Luiz Filipe Barboza

 
RIO - Por que jovens de classe média alta, com todas as oportunidades e facilidades que a boa educação e o conforto podem dar, descambam para a vida no crime? A antiga noção de que uma família desestruturada está necessariamente por trás de toda história assim não traduz a realidade, dizem especialistas em comportamento. Um garoto que tenha freqüentado os melhores colégios, recebido orientação dos pais e passado pela adolescência sem motivos para grandes revoltas não está livre do perigo de optar por uma vida torta. E tornar-se um traficante, por exemplo, como os jovens de classe média alta presos na Zona Sul do Rio por vender ecstasy e outras drogas. As companhias contam muito. É o antigo, mas sempre atual, "diga-me com quem andas e te direi quem és".

- É claro que uma boa educação, com atenção dos pais, orientação e carinho, ajuda muito na formação do caráter. Mas não é garantia de que o jovem não vá se envolver com algo errado. Muitas vezes a influência do grupo que ele freqüenta é que o leva a uma vida no crime - diz a psicóloga Aline Marques, que trabalha com atendimento a adolescentes de 12 a 16 anos numa escola de classe média do Rio de Janeiro.

Se o grupo influencia tanto, o que cabe aos pais? O muito que podem fazer, alerta a terapeuta, é prestar atenção aos lugares que os filhos freqüentam e, principalmente, com quem.

- É fundamental incentivar o filho a levar os amigos para o convívio dentro de casa, para que os pais conheçam com que ele anda. A adolescência é uma fase de afirmação da identidade, o adolescente quer ser aceito, quer entrar no grupo. Por isso é importante observar que grupo é esse em que ele está - recomenda Aline.

A psicóloga fala em pais atentos, interessados ao que acontece com os filhos. Os sintomas aparecem dentro de casa. Um jovem que fique arredio quando se fala em drogas, ou que defenda com muito desembaraço o uso delas, pode estar tendo problemas, diz a professora de Psiquiatria da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Maria Thereza de Aquino. Alerta semelhante faz a delegada Patrícia Aguiar, responsável pelas prisões da quadrilha de traficantes de ecstasy, na quinta-feira:

- Pais, observem mais os seus filhos. Não é comum o filho possuir mais de três telefones celulares. Não é comum passar o dia inteiro ao telefone - orienta.

Limite. Eis a palavra-chave no relacionamento de pais com filhos, segundo Maria Thereza de Aquino. Diretora do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Atenção ao Usuário de Drogas (Nepad), ela chama a atenção para o estrago que pais ausentes ou permissivos podem provocar na personalidade de um filho.

- Em casa tem que estar um pai ou uma mãe que seja respeitado, que estabeleça limites. Pais culpados pela ausência costumam dar tudo aos filhos, quando eles querem alguma coisa. Isso passa à criança, que será um adolescente e um jovem mais tarde, a noção equivocada de que as coisas surgem por mágica, basta ela querer - destaca.

Em depoimento na TV, sem se identificar, o pai de um dos rapazes presos na quinta-feira pela Delegacia Contra Drogas, reconheceu:

- Nós procuramos dar o melhor para eles, mas talvez eles queiram mais do que podem ter e acabam indo para uma coisa que não é legal para a sociedade.

É este "querer mais", e rápido, que representa uma ameaça, na opinião de Maria Tereza de Aquino. Ela ressalta o perigo do ritmo de vida que se leva hoje em dia. Há, segundo a professora, uma pressa generalizada dos jovens em vencer logo na vida, em ter sucesso, em acumular dinheiro. Eles não parecem dispostos, em muitos casos, a esperar o tempo que seus pais esperaram para ter as coisas.

- Tive um paciente emblemático, filho de dois altos funcionários de uma institutição financeira que levaram a vida inteira honestamente e formaram dois filhos. Um deles, o meu paciente, aos 16 anos decidiu que não ia esperar 25 anos, como os pais, e teria as coisas muito mais rápido. Hoje, aos 18 anos, ele tem milhares e milhares de dólares obtidos no tráfico de drogas e vive foragido, sem poder voltar ao país - conta. - Os pais sempre foram apaixonados por esse filho, é uma família estruturada. Talvez, porém, o que se possa dizer é que ele foi criado pela empregada, que sabia mais dele e do irmão do que os próprios pais, ocupados demais com suas carreiras profissionais.


O peso que tem um exemplo em casa

Essa pressa em se dar bem, em se conseguir rápido o que se deseja, traduz-se, na opinião da psicóloga Aline Marques, no que ela chama de "época de transição de valores morais".

- O foco está sempre muito na realização, no dinheiro, no conforto. É preciso ficar atento para ajudar o jovem a administrar isso - diz.

Maria Thereza de Aquino concorda. Ela diz que o melhor antídoto contra futuros desgostos com os filhos é o exemplo.

- Não é só falar, é fazer. Tem que mostrar à criança que tudo se consegue ao seu tempo, e não magicamente - ensina. - Estamos num tempo frenético, em que a felicidade tem que vir rápido, o dinheiro tem que ser conseguido logo. E nossas crianças estão expostas desde muito cedo a isso tudo. Quando junta isso com a adolescência, que é uma época de turbulência e de imediatismo, as coisas tendem a se complicar. Por isso é importante combater isso dentro de casa. Quem não aprende a esperar não tem esperança.

Notícia publicada em O Globo Online, em 09/11/2007.


Jaqueline Leal* comenta

Em lendo-se essa matéria, percebemos com clareza que os psicólogos materialistas têm explicações muito interessantes e pertinentes sobre as causas que levam jovens de classe média alta a entrar para a senda do crime.

Em primeiro plano, eles trouxeram um fato relevante, quando disseram que a adolescência é a fase da identificação com grupos.

Consultando “O Livro dos Espíritos”, percebemos que essa identificação não é fortuita, nem absolutamente fruto da negligência dos pais em observar quem são os amigos dos filhos.

Na questão 301, consta a informação de que “a simpatia que atrai um Espírito para outro é o resultado da perfeita concordância de suas tendências, de seus instintos.” (destacamos) Assim, quando esses jovens se unem, é porque possuem todos as mesmas tendências e formam grupos com seus iguais.

Isso é facilmente observável numa escola e desde a mais tenra idade. Normalmente, as crianças mais “populares” juntam-se com as “mais populares”; as “mais estudiosas” juntam-se com as “mais estudiosas”; as “esportistas” juntam-se com as “esportistas”. No eclodir da personalidade, o que ocorre no período da adolescência, essa união torna-se mais perene e – por que não? – por vezes, muito mais nociva.

Então, essa questão vai muito além da simples observação das amizades. O ideal é sempre prevenir que eles se unam aos seus iguais do passado, a partir da observação de suas tendências desde a infância, como nos sugere Santo Agostinho na comunicação 9 do capítulo XIV de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”.

Adite-se à essa observação das tendências perniciosas do passado a substituição dos hábitos da criança por outros novos, apresentando-a novos ambientes e realidades. Aí, então, enquadra-se a melhor vacina contra o nosso eu inferior, que é o conhecimento e a vivência dos postulados espíritas.

Por isso, o ideal é evangelizar as crianças desde o mais cedo possível, quando estão mais suscetíveis às mudanças que se lhe podem ser impressas no caráter.

Os profissionais que foram entrevistados também falaram sobre os pais permissivos, que tudo compram, mas não estão presentes no dia-a-dia dos filhos, como mais um dos motivos que levam os jovens a se envolverem com amigos que os levariam à vida criminosa.

A esse respeito, gostaríamos de lembrar que a questão 892 de “O Livro dos Espíritos”, quando fala da ingratidão filial, diz que os desgostos que os pais têm com os filhos “são quase sempre a conseqüência dos maus costumes que os pais deixaram os filhos seguir desde o berço; eles colhem, portanto, o que semearam.”

Contudo, não podemos nos esquecer jamais do que nos disse Pedro na sua 1ª carta, capítulo 4, versículo 8: “o amor cobre uma multidão de pecados.”

Então, àqueles pais que já deixaram passar a primeira infância de seus filhos e hoje se vêem às voltas com a preocupação de que eles repitam o triste caminho pelo qual esses jovens enveredaram, ainda existe esperança. Aliado ao apoio terapêutico, é muito importante que eles sejam apresentados a novas maneiras de ver o mundo e novas oportunidades de crescerem como pessoa. E um excelente exercício é encaminhar esses jovens a um grupo de mocidade espírita, para que ele possa ter a oportunidade de refazer seus círculos de amizade, para que ele possa ter a oportunidade de aprender pela convivência a servir a outras pessoas e, principalmente, para que ele comece a aprender os postulados espíritas em linguagem e metodologia adequados à sua idade.

Sempre é tempo de se reeducar. Aos pais que ainda não começaram essa tarefa em si mesmo – o tempo urge!

Não podemos nos esquecer do valioso ensinamento de Allan Kardec na nota da questão 917 de “O Livro dos Espíritos”: “a cura poderá ser prolongada porque as causas são numerosas, mas não é impossível, de resto, não se chegará a esse ponto se não se atacar o mal pela raiz, ou seja, pela educação. Não essa educação que tende a fazer homens instruídos, mas a que tende a fazer homens de bem. A educação, se for bem compreendida, será a chave do progresso moral.”

*Jaqueline Leal é servidora pública estadual, espírita há 14 anos, trabalhadora do Espiritismo.Net, articulista, expositora espírita e evangelizadora infantil.



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