2011-03-06 A neurociência da espiritualidade

A neurociência da espiritualidade


O cientista americano Kevin Nelson explica ao site de VEJA o que acontece no cérebro de quem, na iminência da morte, relata ter antevisto o Além. E adianta: ‘o mistério da espiritualidade continua’

Natalia Cuminale

No filme Além da Vida, dirigido por Clint Eastwood, a jornalista vivida por Cécile de France é tragada por um tsunami na Ásia e quase morre afogada. Na iminência da morte, a personagem enxerga vultos de pessoas vagamente familiares sob uma luz difusa. Ao ‘voltar à vida’, tem a impressão de que acaba de passar por uma experiência espiritual e conclui ter antevisto o ‘outro lado’. Todo ano acontecem incontáveis casos assim: pessoas em risco de vida enxergam parentes e amigos envoltos em luzes ou têm a sensação de sair do próprio corpo.

A ciência define estas experiências de quase morte como resultado da diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro, o que provoca alterações momentâneas na mente. “Em casos de quase morte, os estados de consciência podem se misturar, provocando reações como paralisia e alucinações”, explica o neurocientista americano Kevin Nelson, autor do livro The Spiritual Doorway in the Brain – a Neurologist’s Search for the God Experience (O Portal Espiritual no Cérebro – a Busca de um Neurologista pela Experiência Divina, sem previsão de lançamento no Brasil).

Na obra, Nelson explica a ciência por trás das experiências de quase morte, mas não descarta o papel da fé e da espiritualidade. "Mesmo se nós soubéssemos o que faz cada molécula cerebral durante uma experiência de quase morte, ou qualquer outra experiência, o mistério da espiritualidade continuaria." Em entrevista ao site de VEJA, Nelson revela como nosso cérebro cria essas visões e diz que, apesar de tudo, ainda espera que exista vida após a morte.

Por que os relatos de pacientes que passaram por situações de quase morte são tão parecidos? Porque a causa é a mesma. A cada segundo, o cérebro regula a quantidade de sangue que circula dentro dele. Se o fluxo sanguíneo diminui, o cérebro encara isso como uma crise e aciona mecanismos que controlam a passagem entre os estados de consciência. Normalmente, nosso cérebro tem três estados de consciência: a vigília, quando estamos acordados, o sono leve e o sono profundo. O cérebro mantém esses estados bem separados. Mas o processo é diferente em pessoas que tiveram uma experiência de quase morte. Nesses casos, em vez de passar diretamente do sono para a vigília, o ‘interruptor’ pode misturar os estados de consciência. Ou seja, ela não está totalmente dormindo e nem acordada. Em um momento de crise, reações como paralisia e alucinações podem se manifestar.

Como o senhor explica a sensação de estar fora do corpo ou a luz no fim do túnel? Durante a experiência de quase morte, o sistema que ativa o sono pode ser estimulado, desativando a região do cérebro ligada à percepção espacial e causando essas experiências extracorpóreas. No caso da luz do fim do túnel, quando o cérebro é privado de sangue – o que pode ocorrer no caso de um desmaio ou parada cardíaca –, o fluxo sanguíneo também diminui nos olhos, o que pode dar a impressão de que há um túnel com luzes borradas.

Há alguma diferença entre voltar da morte e a experiência de quase morte? Para um neurologista, não existe essa opção de voltar da morte. Se o seu cérebro está morto, você está morto. Quando o cérebro morre é porque os neurônios morrem, as células nervosas morrem. O que acontece é que o cérebro pode continuar a funcionar com sua capacidade limitada. É como que só houvesse uma goteira de fluxo sanguíneo no cérebro. Em alguns casos, podem pensar que o paciente morreu, mas não é o caso. O cérebro continua bem vivo.

A experiência de quase morte só ocorre em pessoas que passam por situações limite? Isso é interessante porque, na maioria das vezes, a experiência de quase morte é causada por um desmaio. Sabemos que um desmaio pode provocar uma experiência parecida com a de quase morte. Nos Estados Unidos, um terço da população vai desmaiar alguma vez na vida, o que torna a experiência de quase morte ou a experiência espiritual uma situação comum. Ao observar os registros médicos das pessoas que tiveram uma experiência de quase morte, apenas metade delas estava em perigo médico real. Outra metade pensou estar em perigo, mas não estava em uma situação médica grave.

O senhor acha que ciência e religião estão se aproximando? Eu não acho que, nesse caso, a ciência e a religião estão em conflito. Na verdade, estou interessado em saber como o cérebro funciona. A ciência pode dizer como o cérebro funciona, mas não pode dizer por que ele funciona desse jeito. Mesmo se nós soubéssemos o que faz cada molécula cerebral durante uma experiência de quase morte, ou qualquer outra experiência, o mistério da espiritualidade continuaria existindo. E sempre haverá um espaço para a fé de cada um.

Qual o futuro da neurociência da espiritualidade? Será muito empolgante. Hoje nós temos equipamentos para analisar o cérebro com os quais nem poderíamos sonhar há vinte anos. Podemos ver de perto como são as atividades cerebrais. Acho que a neurociência da espiritualidade ainda está no início e que descobertas muito empolgantes estão no nosso horizonte.

Qual a importância de entender as funções neurológicas da espiritualidade? É muito importante. Ao entender como o cérebro funciona durante experiências significativas é que poderemos saber verdadeiramente o que significa ser humano, no sentido moderno.

O uso de drogas também pode provocar situações parecidas com a experiência de quase morte? Sim. Por exemplo, a quetamina, que é um medicamento utilizado rotineiramente como anestésico, pode causar experiência extracorpórea. Mas não existe uma única droga capaz de produzir todo o fenômeno do que pensamos ser a experiência de quase morte. Muitas pessoas têm experiência de quase morte sem ter nenhum tipo de medicamento em seu sistema.

Podemos dizer que o processo de experiência de quase morte é parecido com um sonho? A experiência de quase morte usa frequentemente alguns dos mecanismos utilizados nos sonhos. Mas não é correto comparar a experiência de quase morte com o sonho que temos toda noite. As alucinações do processo de quase morte podem parecer com sonhos lúcidos, que ocorrem enquanto as pessoas estão conscientes.

Como o senhor se interessou pelo tema? Há trinta anos, quando ainda era um residente de medicina, um paciente me trouxe uma fotografia de uma cena que ele mesmo havia pintado após uma experiência de quase morte. Na imagem, ele estava deitado no quarto da UTI, e no pé da cama estava uma figura que representava o diabo. Entre ele e o diabo, havia um anjo guardião. O diabo estava disposto a levar sua alma. Jesus chegou e o salvou. Na ocasião, ele achou que toda essa situação foi responsável por sua recuperação. E sentiu-se mais poderoso por conta disso. Guardo esta foto até hoje.

Por que outros cientistas têm receio em abordar o assunto? Infelizmente, neurologistas não tendem a se interessar por experiências subjetivas. Eles estão muito mais interessados em olhar para as células em um microscópio.

Seu trabalho pode ser considerado provocativo. E o senhor escreveu que pretende continuar provocando controvérsia. Por quê? As pessoas têm várias perguntas. Ninguém tem todas as respostas. Essa é uma área que temos que pensar permanentemente. Nós precisamos continuar discutindo sobre como o cérebro realmente funciona.

O senhor acredita que existe vida após a morte? Eu realmente espero que exista.

Matéria publicada na Revista Veja, em 28 de janeiro de 2011.


Jorge Hessen* comenta

Kevin Nelson, autor do livro The Spiritual Doorway in the Brain – a “Neurologist’s Search for the God Experience”, explicou ao portal de “VEJA” o que acontece no cérebro de quem, na iminência da morte, relata ter antevisto o Além. “A ciência define essas experiências de quase morte como resultado da diminuição do fluxo sanguíneo no cérebro, o que provoca alterações momentâneas na mente, e os estados de consciência podem se misturar, provocando reações como paralisia e alucinações”(1), segundo o cientista americano.

Nelson diz que “a ciência pode dizer como o cérebro funciona, mas não pode dizer por que ele funciona desse jeito. Mesmo se soubéssemos o que faz cada molécula cerebral durante uma experiência de quase morte, ou qualquer outra experiência, o mistério da espiritualidade continuaria existindo.”(2) Kevin crê que a neurociência da espiritualidade ainda está nos seus primórdios e que descobertas futuras muito empolgantes estão por vir. Infelizmente, “muitos neurologistas tendem a não se interessar por experiências subjetivas. Eles estão muito mais interessados em olhar para as células em um microscópio.”(3)

O assunto tem despertado interesses cada vez mais vigorosos. Há três décadas, o psiquiatra norte-americano, Raymond Moody Jr. trouxe ao conhecimento do grande público uma coletânea de relatos de EQM - experiência de quase morte(4), através do livro "Life after Life"(5). Os pacientes trazem todos os sintomas de morte clínica. As vítimas flutuam sobre o seu corpo físico, acompanham os acontecimentos e percebem que possuem outro corpo, e que sua consciência acompanha este novo corpo, de natureza extrafísica.

Pacientes encontram-se com seus familiares e amigos já falecidos, com imensa alegria. Todos lhe dizem das tarefas desenvolvidas no mundo espiritual, da necessidade de continuar trabalhando, evoluindo e estudando, que os laços familiares não se rompem, pelo contrário, se fortalecem através do amor e do perdão. Nesse momento, não importam as facilidades materiais, a riqueza, o poder, as posições sociais; interessa apenas o bem e o conhecimento que existe em cada pessoa, independente de suas crenças religiosas ou filosóficas. As EQM’s sempre ocorreram, sobretudo em épocas remotas, quando os fenômenos de catalepsia dificilmente conseguiam ser diagnosticados. A técnica de constatação do óbito era muito empírica, quase sempre através da respiração e das frequências cardíacas, via pulsos, jugulares, etc.

Atualmente, através dos eletroencefalógrafos, pode-se assinalar com maior precisão o instante da paragem cardíaca definitiva e da morte real. No entanto, mesmo nesses casos, estudados por Edith Fiore, Elizabeth Kubler-Ross ou Raymond Moody Jr., há sempre o retorno à atividade do coração e consequentemente do cérebro, oferecendo evidências de que no momento da aparente morte da consciência, o ser consciente continua pensando. Para os materialistas não existe, óbvio!, a vida além-túmulo.

“Alguns cientistas da clínica universitária Rudolfo Virchow, de Berlim, tentam desmistificar a EQM. Descobriram uma nítida vinculação entre as alucinações de síncope e as EQM e verificaram a "exatidão das suas intuições e hipóteses" com um grupo de 42 (quarenta e duas) pessoas "jovens e sadias". As cobaias humanas foram privadas de todos os sentidos por tempo máximo de 22 segundos. Ao recobrarem os sentidos, relataram experiências muito similares aos dos fenômenos de quase morte”(6). O assunto também vem sendo estudado pelos norte-americanos desde 1977, quando foi fundada nos EUA a Associação para o Estudo Científico dos Fenômenos de Morte Iminente.

Para os pesquisadores engessados no materialismo, as alucinações são causadas por problemas de ordens variadas, seja farmacológica, fisiológica, neurológica e psicológica. Aliás, sobre a explicação psicológica para a EQM, como uma síndrome determinada pelo medo da morte, cai quando observamos que crianças que não têm esses medos e não têm ainda um conhecimento cultural sobre a morte vivem experiências semelhantes aos adultos. É interessante colocar que as pessoas descrevem suas experiências como algo vívido e real e que marcaram suas vidas para sempre, e não simplesmente uma reação passageira a uma situação estressante.

No ano de 1985, Divaldo Franco teve uma lipotímia.(7) Estava proferindo uma conferência na Associação Espírita, em Salvador (Brasil), quando um espírito muito amigo lhe disse para sair dali porque ia desmaiar e era provável que desencarnasse. Pareceu-lhe anedótico. Divaldo terminou a palestra e dirigiu-se a uma das salas da Associação. No momento em que se acercava de um divã, teve uma estranha sensação de paragem cardíaca; a princípio, a lipotímia, e depois a paragem cardíaca, e sentiu-se fora do corpo. Então, médicos que estavam presentes na reunião acorreram para lhe dar assistência. Curiosamente, o tribuno baiano disse que naquele estado sentia um grande bem-estar. Viu-se fora do corpo e recordou-se de uma afirmação de Joanna de Ângelis - de que no dia em que perdesse a consciência e a visse, haveria acontecido o fenômeno biológico da morte. Narra Divaldo o seguinte: “Eu olhei à minha volta e não a vi [Joanna]. Vi então a minha mãe (já falecida) que se aproximou de mim. Perguntei-lhe: "Mãe, eu já morri?” e ela disse-me: "Ainda não". Dentro de alguns minutos eu comecei a preocupar-me, pois se passasse muito tempo poderia ter morte cerebral e ficar apenas em vida vegetativa. Mas minha mãe voltou e disse-me: "Seus amigos espirituais dão-te uma moratória, tu viverás um pouco mais." E eu perguntei-lhe: "Quanto tempo?” Ela respondeu-me: "Não sei". Então voltei ao corpo e recuperei a consciência no corpo físico."(8)

Para o espírita não existe a morte, pois o Espírito é imortal e sobrevive à decomposição do corpo físico. A morte (ou desencarnação) apenas é um estágio final de um processo evolutivo nesta vida física. Só o corpo morre. Kardec estudou esse envoltório espiritual e denominou-o de perispírito, que tem sido estudado por vários especialistas. Porém, por falta de instrumentos e equipamentos de laboratório, ainda estamos muito longe de conhecer a sua estrutura de funcionamento do psicossoma.

O professor Rivail refere-se ao desdobramento ou às chamadas viagens astrais (segundo algumas definições espiritualistas) como o perispírito se desprendendo do corpo, como no sono, no transe hipnótico, desmaios, coma etc. Nesse processo, o perispírito pode atravessar paredes e outros obstáculos materiais e muitas vezes ocorrem fenômenos conhecidos como bilocação, bicorporeidade, exteriorização do duplo, etc. A saída do perispírito do corpo é atualmente cientificamente comprovada. Nos Estados Unidos se usa a sigla OBES, ou seja, out of body experience (experiência fora do corpo). O Dr Gleen Gabbard, psiquiatra da Faculdade de Psiquiatria Menninger, no Estado do Kansas, conta em uma de suas anotações que um homem desdobrado assistiu a uma reunião de pessoas que queriam matá-lo, e graças a isso conseguiu mudar de rota no retorno à casa e surpreendeu os seus perseguidores mandando comunicar os detalhes do plano à polícia e escapou ileso.

A imortalidade já é a Lei da Vida, proclamam os Benfeitores espirituais. Entretanto, obviamente devemos acompanhar atentamente o debate dos cientistas contemporâneos a respeito do tema EQM. Em nossos dias, várias escolas, como a psicologia transpessoal, baseam-se em experiências transcendentais e se pautam no argumento da imortalidade. São vários profissionais da área de saúde mental que publicam livros relatando experiências de morte provisória. Há, sem dúvida, atualmente, um movimento universal buscando uma interpretação global do homem. Os ventos das revelações espíritas sopram firmes e fortes, e os laboratórios científicos da academia humana passam a considerar a possibilidade do ser imortal.


Referências Bibliográficas:

(1) Kevin Nelson, neurocientista americano, autor do livro The Spiritual Doorway in the Brain – a Neurologist’s Search for the God Experience , disponível no site <http://veja.abril.com.br/noticia/ciencia/a-ciencia-da-espiritualidade>, acessado em 11-02-2011;

(2) Idem;

(3) Idem;

(4) O termo “Experiências de Quase-Morte” (EQM) , tradução de “Near-death experiences”, cunhado pelo psiquiatra americano Raymond Moody Jr., surgiu com a publicação de seu livro “A Vida Depois da Vida”, em 1975 (Butterfly Editora);

(5) Moody Raymond, Life After Life, Inglaterra: Ed. Ebury Press, 2001;

(6) Publicado no Jornal Correio Braziliense, edição de 20-09-1994;

(7) Perda mais ou menos completa do conhecimento acompanhada da abolição das funções motrizes, com integral conservação das funções respiratória e circulatória. A lipotímia se constitui no primeiro grau de síncope: é acompanhada de palidez, suores frios, vertigens, zumbidos nos ouvidos: a pessoa tem a impressão angustiante de que vai desmaiar, mas, de fato, raramente, perderá o conhecimento. O fênomeno pode ser causado por emoção violenta, por súbita modificação da posição deitada para a posição vertical, ou por toda circunstância análoga, susceptível de alterar a circulação. A lipotímia usualmente não é grave e deve ser procurada assistência posterior para averiguação de eventual existência de doença normal desencadeante;

(8) Disponível no portal http://arquivotemporariofabio.blogspot.com/2010/11/eles-morreram-e-voltaram.html, acessado em 11-02-2011.

* Jorge Hessen é natural do Rio de Janeiro, nascido em 18/08/1951. Servidor público federal lotado no INMETRO. Licenciado em Estudos Sociais e Bacharel em História. Escritor (dois livros publicados), Jornalista e Articulista com vários artigos publicados.



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