2009-06-30 ‘Heróis por um dia’ contam por que arriscaram a vida por desconhecidos

‘Heróis por um dia’ contam por que arriscaram a vida por desconhecidos


Mulher de 31 anos usou jaqueta em resgate a trabalhadores em SP. Analista de sistemas pulou no Rio Pinheiros para salvar criança.

Luciana Bonadio
Do G1, em São Paulo

Eles são pessoas comuns que arriscaram a própria vida para salvar alguém que nunca viram. "Heróis por um dia", eles praticam gestos de solidariedade como o da tesoureira Carla Pagano, de 31 anos, que ajudou a salvar dois trabalhadores que limpavam os vidros de um prédio e ficaram presos em um andaime durante um vendaval em São Paulo.

Com uma jaqueta na mão, Carla conseguiu puxar os homens que balançavam a 30 metros de altura. O andaime onde eles estavam ficou desgovernado por causa dos ventos de até 80 km/h que sopravam na capital paulista. Após o salvamento, a tesoureira teve que conviver com a rotina de um herói: muitas entrevistas, fotos, reconhecimento das pessoas nas ruas e a mesma história repetida várias vezes.

“De quarta-feira (6) para cá, eu confesso que fiquei meio assustada com essa rotina. As pessoas me olham na rua e me reconhecem. Faço questão de olhar para todo mundo”, contou Carla ao G1 na sexta-feira (8). Apesar do risco que correu, ela garante que repetiria o gesto. “Sem dúvida, eu faria tudo de novo por qualquer pessoa”, afirma.

Além de reencontrar os trabalhadores que ajudou a salvar, ela recebeu os agradecimentos da mãe de um deles. “Ela me agradeceu bastante e disse que sempre vou estar nas orações dela”, lembrou. A família de Carla também ficou orgulhosa com o gesto. “Minha mãe não esperava essa repercussão e está feliz de dizer que a educação que ela passou para os filhos deu resultado.”

O psicólogo e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Ari Rehfeld acredita que a sensação de comunidade é que motiva algumas pessoas a arriscarem a vida por um desconhecido. “O que faz o indivíduo tomar uma atitude que coloque em risco a sua vida é a sensação de que a pessoa faz parte de sua família, que o outro faz parte de sua comunidade”, diz o psicólogo.

Para ele, esses gestos estão cada vez mais raros em cidades grandes. “Em uma comunidade mais saudável, a pergunta seria por que uma pessoa não arrisca sua vida em função de outra. Gestos de solidariedade existem, são muito bem-vindos, mas são mais raros [em São Paulo] do que em comunidades pequenas”, acredita.


Heróis paulistas

Em dezembro de 2006, o analista de sistemas Adriano Levandoski de Miranda, de 27 anos, salvou um menino de 3 anos no Rio Pinheiros. Ele passava sobre a Ponte João Dias, na Zona Sul de São Paulo, e viu uma mulher caindo da ponte com o filho no colo. O analista pulou no rio e conseguiu resgatar a criança. A mãe também sobreviveu.

“Quando eu vi aquela cabecinha caindo, bateu o desespero. Essa foi minha motivação”, diz Miranda. Dois anos depois, ele ainda tem contato com o menino que salvou. “Ele é super esperto, bagunceiro. A sensação é muito boa de vê-lo correndo, brincando”, conta. Miranda também garante que repetiria a atitude, caso fosse necessário. “Hoje uma pessoa vê a outra precisando e vira as costas, finge que não é com ela.”

Uma van coberta pela água e cenas de desespero em outro ponto da Marginal Pinheiros. A atitude de pessoas que passavam ajudou a salvar, em novembro do ano passado, a vida de um jovem dentro do veículo que caiu em um córrego. O músico Allen Ferraudo, de 26 anos, usou a própria calça no resgate.

“As pessoas são capazes de um raciocínio instantâneo, de se colocar no lugar do outro. No meu caso, tinham cinco ou seis pessoas que estavam ajudando a retirar o rapaz da enchente. A calça era a única forma de tirar o rapaz”, lembra. Dentro da peça de roupa estavam a carteira e o celular, que foram perdidos em meio ao alagamento.

Por causa da água que se acumulou na pista após um temporal, não era possível ver onde começava o córrego. “O pânico de cair na água e me tornar outro problema era muito grande. O sucesso dessa operação foi a ação conjunta. Parece que todo mundo está andando na mesma frequência”, lembra.


Heróis dentro de casa

Se algumas pessoas se arriscam para salvar desconhecidos, imagine quando é alguém da família que corre perigo. A coragem do avô Joaquim Pereira salvou o neto em fevereiro de 2007 no município de Cosmorama, a 501 km de São Paulo. Ele lutou e matou com um facão a cobra de 35 quilos que atacou a criança, então com 8 anos.

A sucuri de cerca de cinco metros se enrolou no corpo do menino, que passava as férias no sítio do avô. Ele correu até a beira de um córrego onde estava o neto e lutou por cerca de meia hora com a cobra, até conseguir soltar a criança. O neto levou 21 pontos no peito por causa de um corte, teve diversos hematomas, mas ficou bem.

Não menos corajosa foi a dona-de-casa Braulina da Mota, de 70 anos. Em novembro de 2007, ela salvou a família de um incêndio na própria casa em Sorocaba, a 99 km de São Paulo. Para entrar no imóvel em chamas, Braulina subiu no fogão, derrubou uma grade de ferro e ajudou filhos, nora e netos a pularem para o quintal vizinho. Graças a ela, ninguém ficou ferido.

Notícia publicada no Portal G1, em 9 de maio de 2009.


Claudia Cardamone* comenta

O que me chamou a atenção nesta matéria foi o que o psicólogo disse, e que cito a seguir:

"O psicólogo e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Ari Rehfeld acredita que a sensação de comunidade é que motiva algumas pessoas a arriscarem a vida por um desconhecido. “O que faz o indivíduo tomar uma atitude que coloque em risco a sua vida é a sensação de que a pessoa faz parte de sua família, que o outro faz parte de sua comunidade”, diz o psicólogo."

Sensação de que a pessoa faz parte de sua família!!!! Não é isto que o Espiritismo tenta nos esclarecer??? O conhecimento da Doutrina Espírita pode estimular esta sensação no indivíduo, pois ela nos mostra que todos nós fomos criados por Deus, que todos nós habitamos o mundo espiritual, que todos nos tornaremos espíritos puros e que para isto reencarnamos por um curto período de tempo em corpos materiais.

"205. Segundo certas pessoas, a doutrina da reencarnação parece destruir os laços de família, fazendo-os remontar às existências anteriores.

- Ela os amplia, em vez de destruí-los. Baseando-se o parentesco em afeições anteriores, os laços que unem os membros de uma mesma família são menos precários. A reencarnação amplia os deveres da fraternidade, pois no nosso vizinho ou no vosso criado pode encontrar-se um Espírito que foi do vosso sangue." (O Livro dos Espíritos, Allan Kardec.)

Há muito anos a humanidade diz que somos todos irmãos e o Espiritismo vem esclarecer porque e como podemos todos nos considerar pertencentes a uma só família.

* Claudia Cardamone nasceu em 31 de outubro de 1969, na cidade de São Paulo/SP. Formada em Psicologia, no ano de 1996, pelas FMU em São Paulo. Reside atualmente em Santa Catarina, onde trabalha como artesã. É espírita e trabalhadora da Associação Espírita Seareiros do Bem, em Palhoça/SC.



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